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E quando ela diz de você: “ele é tão bonzinho”? Um caso sobre ser honesto consigo mesmo

Mauro gosta de Adriana. Ele sempre ajuda Adriana a fazer seus trabalhos da faculdade, a estudar para as provas. Ele faz de tudo para resolver os problemas dela assim que eles surgem. Quando ela tem alguma dúvida em relação a sua própria vida, ele sabe o que é certo a se fazer.

Mauro é atencioso, um ótimo ouvinte, paciente, leal. Ele sempre diz o que acha que é certo dizer. Ele nunca discorda das opiniões dela e quando ele considera um assunto “delicado” prefere ficar quieto do que entrar em uma discussão e criar qualquer tipo de atrito.


Adriana é simpática, bonita naturalmente, não usa muita maquiagem e é até um pouco inocente quando o assunto é “relacionamentos amorosos”. Talvez seja por isso que ela costuma sair com os caras errados que acabam machucando-a. E então, quando ela fica triste, ela desabafa com Mauro, sempre atencioso.

 Após o desabafo de Adriana pode ser que Mauro adote uma postura paternal autoritária do tipo “eu já te disse milhares de vezes pra você não fazer isso” e ficar bravo por ela não o ter ouvido. Pode ser que Mauro adote uma postura mais serena do tipo “eu te entendo, homens são uns idiotas mesmo”. Ou pode ser que Mauro apenas a ouça e a abrace enquanto ela chora.

 Mauro fica revoltado e sente uma dor imensa no peito quando descobre que Adriana deu pra um cara que ela conheceu há pouquíssimo tempo, enquanto ele tá ali ao lado dela há meses e ela ainda não deu bola pra ele. Como é que ela não se toca que Mauro se importa com ela? Por que é que ela prefere dar pra um desconhecido da balada do que se entregar aos braços de alguém que realmente gosta dela?

 Não importa o cenário, a única coisa que importa é: Mauro só faz isso porque ele quer comer Adriana. E a única verdade que importa pra Mauro é: Adriana nunca vai dar pra Mauro.

 Se você se identificou com qualquer comportamento de Mauro eu tenho péssimas notícias pra te dar. Você é o “nice guy”. Você é o amigay. Você é o amigo da namorada que namorado nenhum sente ciúmes, pois ele sabe que você não representa perigo (mesmo sabendo de suas segundas intenções). Você não come ninguém.

 Pra você ter uma ideia de como a sua Adriana não te considera um ser sexuado, responda pra você mesmo: qual foi a última vez que a sua paixão platônica te apresentou uma amiga? Seja honesto e só considere aquela amiga que a Adriana chegou pra você de lado e perguntou “e aí, gostou dela? ela acabou de terminar um namoro e tá a fim de curtir”.

 Sim, é difícil admitir pra si mesmo que você é tão sexual quanto a cadeira que está sentando. Se você tem até 20 anos e vive essa situação, tá tudo bem, você está na idade normal de aprendizado. Se você tem até 25 anos e ainda passa por isso, devo ser duro com você, mas já passou da hora de ter aprendido a lição. Se você tem mais de 25 e, porra, continua dando cabeçada na parede, faça um favor pra você mesmo e leia este artigo até o fim. Mas antes se olhe no espelho e dê um tapa na sua cara. Sim, dê um tapa na sua cara. Só então volte aqui pra continuar lendo isso.

 

Os motivos de você ser bonzinho e o contrato implícito

 

Diferente do que pensa o senso comum, existem diversos tipos diferentes de bonzinhos. Na história contada há pouco eu dei uma leve introdução a alguns deles: o autoritário paternal, o sereno, o não-reativo. Não existe um comportamento típico que os definam; o que os define é  uma mentalidade. O que é necessário saber sobre os bonzinhos é que a raíz do seu comportamento está na sua necessidade por aprovação.

 Por que Mauro não demonstrou seu interesse sexual em Adriana, desde que se conheceram?

 Por que Mauro sempre ouve os problemas de Adriana, mesmo quando estes o fazem se sentir mal (como quando ela conta que deu pro bonitão da balada que nunca ligou de volta)?

 Por que Mauro não gosta de expor suas opiniões quando são contrárias às da Adriana?

 Por que Mauro sofre durante anos com a ilusão de ter sexo com sua amada enquanto outros fodem ela sem ter sentimento algum?

 Por que Mauro insiste em ser o cara perfeito – ou melhor, o príncipe encantado do conto de fadas?

Basicamente porque ele quer aprovação.
Se Mauro tem vontade de falar um palavrão, ele repensa por alguns instantes e usa outra palavra menos suja no lugar.
Se Mauro quer fazer algo diferente, ele vai perguntar pra Adriana se o que ele quer está bom pra ela. Se Adriana tem um problema do qual ela é plenamente capaz de resolver sozinha, Mauro vai se prontificar a resolver isso por ela. Mauro chega até a ser “fiel” sexualmente a Adriana, mesmo que eles nunca tenham tido nada juntos.

 Com esse comportamento, que pela visão de Mauro, o torna perfeito, ele busca sempre o status de ‘cara ideal’ aos olhos de Adriana. Ele não fala o que sente. Ele não demonstra sentimentos negativos como raiva, inveja, ciúmes. Ele só fala mal de quem Adriana não gosta. Ele fala só bem de quem Adriana gosta.

 Mesmo sendo o cara perfeito Mauro nunca consegue o que quer, que é ter Adriana. Muitas vezes Mauro mente pra si mesmo dizendo que ela é única e especial, mas as chances são que ele apenas a colocou num pedestal pois ela se mostrou disponível em algum momento de carência.

 Até que um dia Mauro se cansa de ‘ir atrás’ de Adriana. Fato é, ele nunca demonstrou que queria Adriana. Ele nunca disse quais eram suas intenções com ela. Todo o seu esforço deveria ter sido reconhecido por Adriana, mesmo que ele nunca tenha dito que se esforçou unicamente por ela.

 Esse é o contrato implícito que a maioria dos bonzinhos firmam para si próprios. Eles esperam que o seu comportamento sem falhas seja reconhecido pelos outros. Eles esperam que devido ao fato deles terem sido bons e se importado com o outro, o outro terá de fazer o mesmo por ele. E eles ficam ressentidos quando isso não acontece.

 Agora vejamos o lado de Adriana. Ela não tem um vida amorosa e sexual muito feliz. Se ela tem um namorado, provavelmente ele não dá a atenção que ela necessita. Se ela não tem namorado, ela nunca consegue encontrar um cara decente. Ao mesmo tempo que sua vida amorosa é meio monótona, ela ainda necessita de atenção masculina. E então Mauro aparece. Ele a ouve, dá atenção, indica caminhos, mostra soluções.

 Mauro nunca nem insinuou suas intenções sexuais com Adriana. Para ela, Mauro é um grande amigo com o qual pode contar a qualquer hora e que nunca irá olhar pra ela com outros olhos. Adriana se sente confortável até para se trocar na frente de Mauro, pois ela acha que, pra ele, ela não é atraente sexualmente. De fato, Adriana acha que Mauro é assexuado.

 Mas, no fundo, Mauro odeia Adriana. Ele odeia o fato de que ela não dá o tipo de atenção que ele quer. Ele a odeia por não reconhecer seus esforços e sempre ir atrás de quem não dá a mínima pra ela. Ele odeia se sentir rejeitado, mesmo sem nunca ter tentado nada com ela.

 Ele acha que ela deve algo para ele. Ele acha que por ele se esforçar tanto, ela deveria fornecer algo em troca. Ela deveria estar presente quando ele estivesse carente. Ela deveria iniciar um contato amoroso ou sexual com ele. Ela deveria abrir os olhos e ver que ele é o cara certo.

 Novamente, ele espera receber algo em troca de algo que ele faz, supostamente, porque o caráter dele força ele a fazer isso. Mas Mauro sente tanta raiva interna por Adriana pois ele realmente se esforça pra ser assim. Se ele não quisesse algo em troca, se Adriana não tivesse um buraco no meio de suas pernas, Mauro nunca teria feito nada disso. E é aí que entra, mais uma vez, o contrato implícito.

 Mauro não é tão bonzinho quanto ele aparenta ser. Ele toma todas essas atitudes e demonstra ser assim porque ele quer algo em troca. E fica ressentido quando não consegue.

 Essa é a verdadeira faceta de um bonzinho. O cara que finge ser alguém que não é, pra conseguir algo de alguém que ele acha que gosta.

 Se você se identificou com qualquer comportamento de Mauro neste texto, eu recomendo fortemente que você leia o livro “No More Mr Nice Guy”,  ou “Diga adeus ao homem bonzinho“.

Fazendo os exercícios que estão nesse livro, você vai deixar, aos poucos, de ser essa pessoa que nunca consegue o que quer para se tornar um homem que tem como prioridade suas vontades e necessidades próprias.

E então você vai ver que, por mais contra-intuitivo que pareça ser, as pessoas vão te amar e respeitar por isso.

  • Tiago

    O artigo é de 2013. Mas é tão atual para o meu contexto, que parece que foi escrito há poucos minutos.
    Incrível como me identifiquei.
    Agora preciso saber o que fazer para mudar. Não se importar, ser mais “durão”, o que você sugere, de forma resumida e objetiva?

    • Denis Carvalho (admin)

      Tiago, não importa se o texto foi feito hoje ou há 50 anos: a natureza humana é a mesma há milhares de anos. Esse tipo de conhecimento esteve guardado em poucos livros e com poucos autores ao longo do tempo, só ultimamente que ele tem sido espalhado pela internet.

  • Batman

    Identifiquei uma pessoa que matei há alguns anos, agora o que nasceu ler este texto rindo muito e pensando : “ele fazia isto, isso também, epa, até aquilo.”
    Perfeito, só fato verídico, público e notório.

  • Renan

    No último parágrafo de fax referência a um outro artigo. Que artigo é esse? Se puder deixar o link, agradeço.

  • Murilo

    Esse site é um obra prima! Estou lendo muito sobre o assunto ultimamente! Lendo este site, Nessaham Alita, etc…